
ESTOU CONVENCIDO: CORRIDA É COISA IMPORTANTE
Sábado, 23 horas. Estou em casa vendo um filme na TV, quando toca o telefone. É o Mathias Petrich, da Volkswagen:
- Marazzi, amanhã cedo você está convidado para conhecer o Audi Quattro, o carro que está vencendo o Campeonato Mundial de Rallyes. Seus pilotos estarão lá!
Dia seguinte estou sentado naquela máquina maravilhosa, observando todos os detalhes de sua construção e admirando os 330 cavalos DIN que o motor 5 cilindros de 2,2 litros, turbinado, desenvolve a 9.000 rpm. E assisto ao filme no qual as equipes que disputam aquele campeonato dão um verdadeiro show de direção.
Às 10 horas da manhã, estou de volta. Ligo a TV e fico torcendo para o Nelsinho Piquet, que sai na frente do G.P. de Hockenheim e aumenta sua diferença, volta por volta. Vejo estarrecido a barbeiragem (proposital?) do chileno Eliseo Salazar, que nos rouba a vitória e também o campeonato, provavelmente. Lamento que o chute dado por Nelsinho não tenha atingido o alvo.
Subo na minha motoca e minutos depois estou em Interlagos, vibrando com a vitória do meu ex-aluno Marco "Largatixa" Greco, na 350 especial. Deploro que tenham largado, na prova seguinte, apenas quatro motos. Mas, mesmo assim, o espetáculo foi bonito. Nas provas seguintes, de monomarca, o entusiasmo e o bom número de concorrentes habitual.
Mas não pude ficar até o fim, pois voltei correndo a sentar-me frente à TV, para assistir a mais uma etapa da Hot-Car, no Rio de Janeiro, onde torci pela vitória do meu outro ex-aluno, Egidio "Chichola" Micci. A corrida foi linda, disputada, apesar do pequeno número de concorrentes (largaram apenas 17).
Subi na motoca novamente e, desta vez, rumei para o lado oposto: fui até o hipódromo de Vila Guilherme, onde estava sendo disputada mais uma rodada do Campeonato Brasileiro de Autocross, a nova modalidade de competição motorizada que está empolgando. E ainda pude assistir às duas finais, de "Baja Bugs" e de "Gaiolas", esta última tremendamente disputada, com 24 concorrentes numa pistinha de terra com menos de um quilômetro de extensão.
Ufa! Que domingo motorizado e corrido! Quando voltei para casa estava exausto, mas muito feliz, porque fiquei me lembrando de quando as coisas não era assim.
De fato, nunca parei para pensar nisto, mas como o brasileiro gosta de esportes motorizados, não? Há alguns anos, a prova máxima era a "Mil Milhas", uma vez por ano, apenas. A gente ficava o ano todo esperando por ela. De vez em quando havia uma corrida em Interlagos, e os concorrentes eram quase sempre os mesmos. De raro em raro surgia uma novidade. O número total de corridas, no Brasil, numa temporada, era da ordem de uma dúzia ...
Agora, em pouco mais de 24 horas, participei de cinco eventos competitivos motorizados, importantes, torcendo por brasileiros!
Este pensamento me fez olhar as corridas por outro lado. Como coisa séria. Como coisa importante. Não como coisa de moleques. Na verdade, de tanto batalhar inutilmente pelas corridas no Brasil, de tanto ouvir negativas de patrocinadores em potencial, de gente metida a importante, engravatada, atrás de imponentes escrivaninhas, eu acabei ficando meio inseguro. Será que, realmente, isso tudo não passa de brincadeira de quem não tem o que fazer? Certa feita, eu vinha de Interlagos, rebocando numa carreta um dos meus fórmulas 1.300, usado nas aulas práticas de minha escola de pilotagem. De repente, um executivo do tipo descrito acima sentiu-se "fechado", pela carreta, me fez parar e me agrediu com palavras pesadas e entre outras "pérolas" saiu-se com esta: "Você está prejudicando o Brasil, gastando combustível com essa porcaria de corridas ... "
Mas agora, depois desse domingo festivo, em que milhões de pessoas não somente aqui no Brasil, mas em toda a parte do mundo, graças à TV vibravam, do mesmo jeito que eu, com as competições motorizadas, tive a certeza de que não desperdicei a minha vida.
Ah! Quem me dera que pessoas importantes pudessem ser convencidas dessa grande verdade! Que os homens que administram as verbas de propaganda das empresas importantes, especialmente as que fabricam automóveis e motocicletas, deixassem de ser emproados e mentirosos e admitissem que as corridas vendem de verdade os seus produtos. Que os homens do Governo sentissem a "força" dessas competições e facilitassem a vida dos corredores e das equipes, ao invés de complicá-Ias.
Fangio jamais escondeu que a Casa Rosada, no tempo de Peron, era o seu maior patrocinador. Porque sua presença marcante nas pistas européias era um cartão de visitas para a Argentina.
Aqui no Brasil, o coitado do Emerson teve de botar a boca no mundo e cobrar tudo o que ele havia feito, para ver se conseguia uma mãozinha oficial, lembram -se?
Então, no que ficamos? Bem, algumas coisas estão se esclarecendo. Por exemplo, na Europa, ninguém mais duvida que o brasileiro é um excelente piloto. Praticamente todos os que foram correr lá fora, de um jeito ou de outro, tiveram seus brilharecos. De modo geral, os ingleses e, com maior amplitude, os europeus, respeitam muito os brasileiros, como bons pilotos.
Só falta mesmo que os próprios brasileiros passem a respeitar os pilotos brasileiros como gente normal, que têm uma profissão como qualquer outra. .
Certa feita fui a um banco, pedir um financiamento. Minha ficha estava quase aprovada, quando o gerente soube que eu era piloto de competição, além de jornalista. Pronto: foi água na fervura, o financiamento não saiu.
Em outra ocasião, fui procurado por um agente de companhia de seguros, que pretendia vender uma apólice. Conversa vai, conversa vem, ele acabou desistindo da venda, quando soube que eu participava de corridas de automóveis e motocicletas.
Essa, agora, não aconteceu comigo, mas fui testemunha: o vetusto pai de família, vetando o namoro da filha com o moço que a cortejava. Justificativa: "Ele é um louco! Imagine que até corre de motocicleta ...
Outra, mais dolorosa, de um "amigão" meu, diretor de uma empresa que estudava a minha contratação como funcionário, para a área de promoções. "Infelizmente, Marazzi, não vai dar. Nós precisamos de uma pessoa mais séria e você continua com aquela sua mania de corridas. Quando você vai criar juizo?" Isso tem de acabar ...
Expedito Marazzi NT : Ontem, conversando com o Gabriel e comentando este texto, disse-lhe que gostaria de postá-lo. Fora isso, combinei com o José Martins Jr. de escrevermos histórias suas com o Expedito . Não esqueci, Martins , logo nos reencontraremos.Primoroso este texto do Expedito, ele mostra toda sua paixão pelo esporte motorizado. Agora, cá entre nós, duvido que ele tenha ouvido quieto todas bobagens que o executivozinho lhe falou !!!!!
Texto revista MOTOR3 nº 27 Setembro de 1982